Inadequada

Tenho a sensação de não poder pertencer a um mundo maior do que eu vivi depois que casei. Duas pessoas. Me acompanhou durante todos os anos - dos 18 aos 44, as recordações da minha infância e da minha adolescência - do meu núcleo familiar. Fui ensinada a amar demais? Geneticamente sou assim? Não sei. Amei loucamente essas pessoas que fizeram parte desse núcleo. E com 44 anos, você é uma pessoa indo para a rua que desce. Aí você se dá conta, aos 45 anos, com seus próprios olhos, que, como estava muito distante geograficamente, viveu um sonho lindo, cor de rosa, numa nuvem branquinha e imaculada. Era sonho, a realidade é outra, bonitona. Acorda!
Quando se é pequena, adolescente, não dá pra ter noção da reciprocidade do amor. Nem adulto a gente sabe o quanto te amam. Se é que amam! Tantos poetas, tantas frases dizendo que em nome do amor se faz atrocidades. Acredito. Existe um amor- discurso. Amor palavra banalizada. Não cai de moda. Sustenta relações infelizes, mentirosas, mascaradas. Sustenta tapetes enxameados por baixo com mentiras, pensamentos de desamor, tampa o que ninguém quer resolver, deixe só no pensamento que a gente se tolera, família é isso. Amor é isso. Mentir, enganar as pessoas que te amam e você também ama. Explorar as pessoas que vc ama. E também te amam. Sorrir para pessoas que vc detesta na sua família. Por causa de alguém que vc ama. E que também te ama.
Decididamente sou inadequada para entender e estar entre uma família que está no futuro, que cresceu em número, que mudou, que agregou novos membros. E vive dessa necessidade de ter esse tapete.
Mas não posso dizer que eles estão errados. É a panela que eles formaram enquanto eu estava longe. Tenho que respeitar as escolhas de cada um e de todos eles juntos. E eles vão respeitar a minha. A nuvem foi embora. Mas irei atrás de outra porque nada me agride mais do que tentar ser quem não sou. E posso estar redondamente errada. Mas é a realidade que eu vivo, a a minha essência. Não posso deixar de ser quem sou. Acho que nem depois de morta.
Porque - em meio a todo esse contexto - dos 18 aos 32 anos fui acolhida e vivi com sogros que eram verdadeiros pai e mãe e gostavam de cartas sobre à mesa. Morei com eles e quando não, estava morando no fundo da casa deles. Ficávamos juntos tempo demais, passeios demais, viagens demais, conversávamos demais, resolvíamos  todos os mal entendidos e entrelinhas. Me deram muito mais do que pude lhes dar. Me trataram como um tesouro, uma filha, com olhos atentos o tempo todo. Me ensinaram muito, me influenciaram. Dou graças a Deus por tê-los colocado em minha vida e por fazerem parte de mim. Essa sou eu, com uma parte deles. Com muito orgulho.


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